sábado, 27 de dezembro de 2014

Partiu, silêncio!

Deus perdoe, mas a lua precisa de paz.
Namorar e descansar.
Deixar seus lagos em açudes parados, quietos.
O brilho ofuscado, silente e frio.
Não ouvir os chamados intensos e fervorosos.
Dos namorados e vazios pedidos.


A lua só precisa dela.
De fio de prata, fino e longilíneo.
Que a leve ao centro terrestre.
Onde a lava e o vulcão dormem.


Esta lua sextavada, cultivada e arenosa.
Busca suas curvas, seus sinuosos sentidos.
Nas bordas da lua branca a ponta da minguante.
Nas torpezas da lua cheia, crescente e nova.
Lua, a que sangra em fios silentes.
Recorta um céu anil, noutra ponta cinza sutil.
Pede, roga, clama: _Deixai em paz!
Porque só é enamorada.

k.t.n.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Sombria noite


A doce página da vida
Reconhece a história quando  real
Imagina quando imaginária.
Não se apetece de diferenças,
Nem se apequena.
É louca e semicerrada
Fecha os olhos e sonha.

Afasta a cortina sombria noite,
Agitam-se serestas.
E pelas frestas pequenas,
fantasias douradas,
amarelas, solitárias.
De cores várias,
de medidas e tamanhos.

Nenhuma se arroga ser real.
Na ilusão das esferas
risca o esquadro.
Fere os olhos sós,
Sangra retinas,
salva o hálito.

É fera, é sono solto,
é bastão de bailarina.
A menina!
Ideia solta, vária,
desatinada, atinge o homem.
Seca, enxuga,
Termina,

... a menina!

domingo, 7 de dezembro de 2014

Burburinho na cidade


 Ao Padre Wilson


A alma chora
O padre vai embora
Seis casais comemoram
O bispo nesta hora,
Encerrado pela multidão
No seio a Igreja.

Cristo agoniza na cruz.
Sua mensagem esquecida.
Os drogados não entram.
A Igreja é dos fiéis do dízimo.
Da elite branca.
Cheiro de leite.

Do galo da torre da Igreja.
De uma cidade pequenina.
De nome Adamantina.

Chora não, padre.
Chora não, povo.
Jesus também foi imolado.
Morto e crucificado.
Eterno vive.

k.t.n.*

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pinga

A água pinga
Pinga a água
Se a água é pinga
Pinga é água?

Este teorema
Equação equatoriana
Sofre de insolação
Estertor de solidão.

A água pinga.
Pinga a água.
A água pifa.
Pisa na água.

A pinga mata
Mata a sede
Salva gente
Muita saliva e hálito.

A água respinga
No mato, na rua
Na flor, na janela
Na garrafa vazia.

A água pinga
Pinga a água.
Goteja forte
Goteja pequeno

É um pedaço
Do meu pensamento.

k.t.n. in novo ensaio em véspera de voltar

domingo, 2 de novembro de 2014

Mimesis II

    Arte: Sérgio Genaro

É preciso pedir perdão. 
Navegar nestas bocas santas. 
Almejar o trato dimensionado.
Esquecer o furacão da alma. 

Urge fazer a palavra seguir. 
O dicionário florir. 
As flores-palavras-frutas 
brotarem do tronco. 

Há um não sei quê nesta hora. 
Uma faina, um labor. 
Porém, é preciso o perdão. 

 Antes que o mundo acabe. 
Antes que o terreno desabe. 
Antes que o vulcão cuspa 
suas lavas latejantes vermelhas crispadas. 

E o homem caminha, assim. 
 Imperdoável palavra na esfera do tempo. 
E não pede perdão, não pede perdão, 
não pede perdão. 

É homem apenas. 
Esqueceu-se. 
Deus teve pena, 
a memória falha.

É memória apenas!

k.t.n. in Finados*&

Mimesis

              Pat Erickson. 

Há uma tristeza no ar. 
Quando a boca quer calar, 
o que a fala oculta.

 As palavras todas intraduzíveis. 
Perfeitas sílabas sem fonemas.
Um tormento sem remendo. 

Estrelas pontiguadas ferinas. 
É a palavra não pronunciada. 
O texto soluçado e estanque na garganta.

Nada se compara à dor vivente. 
A insídia e pérfida traição. 
Da dilapidação da língua circundante. 

Em espiral genérica em gaze estuporada. 
A argamassa do texto arremessado, 
ao dissabor das ondas da maré. 

Um homem, o que é? 
Um homem, o que faz? 
Um homem, um ser! 
Precisa exercer! 
Constelações de expressões, arte e mimesis.

k.t.n. por um Dia de Finados*&

sábado, 25 de outubro de 2014

Lavandas, lírios e sorvetes!

Por favor, lavandas, lírios, sorvetes e alfazemas!
Chás, panelinhas, daquelas pequeninas!
Xícaras, porcelanas, vidros, potinhos.
Caibam nos bows a notícia do dia!

Também, aceita-se rosa ou camomila!
Incenso de sândalo, limão ou capim canela.
Perfumes da Síria ou das noites árabes.
Qualquer sinuoso que encha os olhos.

Não se esqueça das alfazemas, lavandas e cinema.
Leve pipoca, chocolatinhos, chicletes e goma.
A música principia no olfato paladar.

Mesa gostosa de se sentar!
Por favor, lavandas, lírios, poemas e alfazemas!
Cinema, cinema, filme de cor e amor!


k.t.n.*&

domingo, 21 de setembro de 2014

Veia cava

Sou daquelas pessoas que não deixam
dúvidas,
Mas  respostas compridas, enormes, rasantes.
Pingos de interrogação, uma paixão indiscreta.
Um falo perdido e noites insones.

Uma mulher falha,
fatal  menos ainda .
Que embola e embrulha os menores inglórios dias.
Passeia pelas letras e repousa na preguiça alheia.
A mulher que passa, que fica e que resmunga.

Uma veia cava, profunda e insólita, comum.
Arrebanho estrelas, escondo tesouros e cheiros
Embalo feridas, dores e partidas, arremesso louros.

De uma tristeza sentida, filtrada e coada.
A mulher que brilha, que senta sobre a soleira.
Lê o próximo livro e pede para a próxima poesia passar.

Assim, sorrio, para mim! Sou uma mulher,
que também passa!

k.t.n.^&

sábado, 30 de agosto de 2014

Sexta-feira de agosto!


Entrego-te as minhas forças.
E durmo até amanhecer!
Numa primavera forçada.
De ecos e melancolias.

Navego entre os cílios fechados.
Encosto a porta.
Deito as costas nuas.
Enxergo o passado entre nuvens.

O algodão dissolveu pássaros lacrimejantes.
Só essência, pó e mistério.
Uma tarde, apenas, de recolhimento.
Horas forjadas de esquecimento.

Deixo o remédio sobre o criado-mudo.
Ainda existem móveis assim.
Sobre a mobília exposta água em copo de vidro.
E as forças se espalhando pelo corpo entregue.

É tarde da última sexta-feira de agosto.

k.t.n.^&


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Soneto invertido

A vida é uma festa! Deixe a música tocar!
Fios de cabelo, hálitos e espermas,
Analisar vãos e labirintos entre pernas.
Esfacelar frios e bordas amarelas,
Concatenar fatos, desencontrar e boatos.

Assim, festa! Assim, dor! Assim, cor!
Assim, ó!, Assim, é! Assim, ih!
Esperança medíocre de todos.

Da alta sinfonia eleger querubins.
Passar dias afoitos e cansados.
Enquanto a música toca, virar arlequins.

Pousa tua mão na testa fria.
Enruga a roupa velha, tua pele, mar de ver.
Nas ondas do bar que bate, sofrem peixes, águas marinhas.
A música toca no Oceano, dos teus olhos, em nossos planos.

k.t.n.*

domingo, 3 de agosto de 2014

Agora

 

  A vida me convidou para viver!
Disse-lhe:
Vou! Agora!

 

 k.t.n.*&

terça-feira, 29 de julho de 2014

Pólen

Onde deixarei meus baús, meus sonhos e fitilhos? Onde deixarei as lágrimas escorridas e os gritos abafados de alegria? Digam-me! A mobília pesa, os ombros cedem, preciso logo da partida, desta que deixam pelo caminho os escaninhos de amor e dor. Olhem, são várias peças pesadas, juntei muita tralha e pequenos valiosos tesouros! Os olhos engordaram, a pressa aumentou o ajuntado. É uma judiaria não ter tempo de olhar um por um destes guardados, com a calma e atenção que merecem. Sorver cada minuto vivido, transcendendo alfazemas pelas roupas guardadas. Das anáguas, das peças camisolas, dos babies dolls, e pequenas peças do vestuário com algumas manchas que resistiram ao sabão em pó, com pequenos pelos visíveis lá, ou acolá, talvez de algum animação de estimação antigo, que sobreviveu ao tempo. Neste instante, os passarinhos cantaram, todos sobre a árvore gigante e acolhedora. Disseram trinados horríveis, estavam angustiados diante da dúvida do voo derradeiro... e a passagem, e a travessia, e as peças todas? Ficaram, ficaram, ... esperando Marias.

k.t.n. in pólen!

sábado, 12 de julho de 2014

Cecília














Levei Cecília para passear.
Não se cabia de contente/.
Enfeitou cabelos, trançou flores
Despiu-se de todas as cores
Era aquarela do Sol.

Entramos na floresta de marfim
Tesouros, arcas, pedrarias esquisitas.
Cecília titubeou! 
Exclamou: _Malditos! 
Escondem-se de mim!

Peguei-a pela mão.
Pus em seus finos lábios os dedos.
Disse-lhe das cores todas.
Ela não viu, ela não viu! 
Pobre Cecília! 

As margaridas todas exalavam rosas.
Pétalas caíam sobre o seu ombro...
Ela não viu! Ela não riu! 

Por um momento breve,
Passamos na piscina prateada.
Cecília se viu, também ao Sol. 
Pássaros volteavam, insetos cantavam.
Ela sorriu! Ela ouviu! 

Olhou para os lados,
Num calor inclemente.
A nudez como testemunha.
As cores voltaram marcadas na pele.

O alvo um arco-íris encolhido num lume.
Faiscava notícias das noites de Abril. 
Cabelos ao vento, tranças desmanchadas. 
O maior do rio é que Cecília sorriu. 

Ela voltou! 
Fiquei ao pé da montanha
Vislumbrando o lago de musgos
Cecília não me viu! Nunca mais nos vimos!
Será que sorriu?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Voltando...

A passos de tartaruga
Como amor de viúva
Cega brava e muda.

Enxergando no campim
Limão, aroeira braba
Enfeite de flores e carmim.

Um gosto azedo do leite
Que cedo talhou no peito.
Um informe secreto paulatino.

E os passos não se alteraram
Inertes sobre pernas dobradas
As tartarugas passaram

Os passos ficaram!
Temerosos.
Indiferentes.
Ociosos.
Arrogantes.
 Pacíficos.
Perdedores!

Assim foi...
E não se pode mais!
A pressa urge e acelera o passo.
Do Outono andante em busca da Primavera.

É um rugido de folhas de caindo.
Barulho de pétalas surgindo, 
Encrespando nas crinas das árvores copadas
Para em Setembro abrirem-se miúdas
Enganando o Sr. e a Sra.

Depois espanam ao vento 
Longas pétalas e fartas corolas
E o que ficou?
Perdeu o espetáculo 
Não colherá os frutos no próximo Outono


Tece o linho de Apolo,
Talvez folhas de amoras.
O néctar servirá ao licor.


Outra vez, apressa-te!
Passos de tartaruga.
Não faz sentido.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O tempo

O tempo passa indiferente 
por nossas dores e alegrias. 
Não respira. 

Transcende o órgão complexo do corpo.
Energiza e pulveriza, organiza e tiraniza! 
Ah, o tempo! 

Quem dera fossem de amoras! 
Tempos de quintais,
varais,  mas males muitos. 

Precisa fincar a pá e gozar dos grãos torrões.
Em volúpia libertina  solfejar areiões. 
Assim, 

-dá ao outro o alento, 
-doce veneno da morte iminente 
-de um caminho sem fim. 

Quem dera adivinhar os seus segredos! 
Faria diferença? 
Oh, não! 

A graça da vida está no caminho do tempo.
Obsceno, nada fraterno
Desertifica-nos os ossos, libera as toxinas. 

Gruda nossas albuminas e células 
em ventríloquos de loucos palhaços. 
Minhas verdades? Aonde foram? 

Norte, Sul, Leste ou Oeste? 
Ninguém sabe. 
Nem o douto tempo, Sr. Absoluto,

Findo no nada!.

Imagem:  Pawel Kuczynski

terça-feira, 1 de julho de 2014

A porta range

 https://www.facebook.com/brunoastuto

De todas as memórias curtas
A que me alivia é a que não ficou.
Como planeta de água,
Dissolve as línguas ferinas
As doces e dissabores.
Das memórias incertas restou
O fígado entorpecido pelo álcool
Aquele não tomado fustigado
Das memórias das naus de Pessoa,
Nem a angústia das noivas por casar,
Nem altar, espécie de aliança velha
Trôpegos passos encarcerados
Na alma velha encarquilhada
Era menino. Uma vez!
Foi estudante. Nem fez!
Tarefa inútil desejo incontido
Cresceu no homem recalcitrante.
Empoeirou as folhas
Caíram em látegos e sôfregos planos.
As memórias esqueceram.
Não podem soçobrar ao peso dos anos.
As imagens apodreceram.
Voltaram à terra, à nau, ao frio.
E o verão próximo?
O que temos para ele?
A primavera rósea que se expande.
É nova.
Florida.
Eterna.
Para que lembrar memórias?
Se o que vemos é o arco-íris dourado!

k.t.n.*