terça-feira, 29 de julho de 2014

Pólen

Onde deixarei meus baús, meus sonhos e fitilhos? Onde deixarei as lágrimas escorridas e os gritos abafados de alegria? Digam-me! A mobília pesa, os ombros cedem, preciso logo da partida, desta que deixam pelo caminho os escaninhos de amor e dor. Olhem, são várias peças pesadas, juntei muita tralha e pequenos valiosos tesouros! Os olhos engordaram, a pressa aumentou o ajuntado. É uma judiaria não ter tempo de olhar um por um destes guardados, com a calma e atenção que merecem. Sorver cada minuto vivido, transcendendo alfazemas pelas roupas guardadas. Das anáguas, das peças camisolas, dos babies dolls, e pequenas peças do vestuário com algumas manchas que resistiram ao sabão em pó, com pequenos pelos visíveis lá, ou acolá, talvez de algum animação de estimação antigo, que sobreviveu ao tempo. Neste instante, os passarinhos cantaram, todos sobre a árvore gigante e acolhedora. Disseram trinados horríveis, estavam angustiados diante da dúvida do voo derradeiro... e a passagem, e a travessia, e as peças todas? Ficaram, ficaram, ... esperando Marias.

k.t.n. in pólen!

sábado, 12 de julho de 2014

Cecília














Levei Cecília para passear.
Não se cabia de contente/.
Enfeitou cabelos, trançou flores
Despiu-se de todas as cores
Era aquarela do Sol.

Entramos na floresta de marfim
Tesouros, arcas, pedrarias esquisitas.
Cecília titubeou! 
Exclamou: _Malditos! 
Escondem-se de mim!

Peguei-a pela mão.
Pus em seus finos lábios os dedos.
Disse-lhe das cores todas.
Ela não viu, ela não viu! 
Pobre Cecília! 

As margaridas todas exalavam rosas.
Pétalas caíam sobre o seu ombro...
Ela não viu! Ela não riu! 

Por um momento breve,
Passamos na piscina prateada.
Cecília se viu, também ao Sol. 
Pássaros volteavam, insetos cantavam.
Ela sorriu! Ela ouviu! 

Olhou para os lados,
Num calor inclemente.
A nudez como testemunha.
As cores voltaram marcadas na pele.

O alvo um arco-íris encolhido num lume.
Faiscava notícias das noites de Abril. 
Cabelos ao vento, tranças desmanchadas. 
O maior do rio é que Cecília sorriu. 

Ela voltou! 
Fiquei ao pé da montanha
Vislumbrando o lago de musgos
Cecília não me viu! Nunca mais nos vimos!
Será que sorriu?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Voltando...

A passos de tartaruga
Como amor de viúva
Cega brava e muda.

Enxergando no campim
Limão, aroeira braba
Enfeite de flores e carmim.

Um gosto azedo do leite
Que cedo talhou no peito.
Um informe secreto paulatino.

E os passos não se alteraram
Inertes sobre pernas dobradas
As tartarugas passaram

Os passos ficaram!
Temerosos.
Indiferentes.
Ociosos.
Arrogantes.
 Pacíficos.
Perdedores!

Assim foi...
E não se pode mais!
A pressa urge e acelera o passo.
Do Outono andante em busca da Primavera.

É um rugido de folhas de caindo.
Barulho de pétalas surgindo, 
Encrespando nas crinas das árvores copadas
Para em Setembro abrirem-se miúdas
Enganando o Sr. e a Sra.

Depois espanam ao vento 
Longas pétalas e fartas corolas
E o que ficou?
Perdeu o espetáculo 
Não colherá os frutos no próximo Outono


Tece o linho de Apolo,
Talvez folhas de amoras.
O néctar servirá ao licor.


Outra vez, apressa-te!
Passos de tartaruga.
Não faz sentido.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O tempo

O tempo passa indiferente 
por nossas dores e alegrias. 
Não respira. 

Transcende o órgão complexo do corpo.
Energiza e pulveriza, organiza e tiraniza! 
Ah, o tempo! 

Quem dera fossem de amoras! 
Tempos de quintais,
varais,  mas males muitos. 

Precisa fincar a pá e gozar dos grãos torrões.
Em volúpia libertina  solfejar areiões. 
Assim, 

-dá ao outro o alento, 
-doce veneno da morte iminente 
-de um caminho sem fim. 

Quem dera adivinhar os seus segredos! 
Faria diferença? 
Oh, não! 

A graça da vida está no caminho do tempo.
Obsceno, nada fraterno
Desertifica-nos os ossos, libera as toxinas. 

Gruda nossas albuminas e células 
em ventríloquos de loucos palhaços. 
Minhas verdades? Aonde foram? 

Norte, Sul, Leste ou Oeste? 
Ninguém sabe. 
Nem o douto tempo, Sr. Absoluto,

Findo no nada!.

Imagem:  Pawel Kuczynski

terça-feira, 1 de julho de 2014

A porta range

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De todas as memórias curtas
A que me alivia é a que não ficou.
Como planeta de água,
Dissolve as línguas ferinas
As doces e dissabores.
Das memórias incertas restou
O fígado entorpecido pelo álcool
Aquele não tomado fustigado
Das memórias das naus de Pessoa,
Nem a angústia das noivas por casar,
Nem altar, espécie de aliança velha
Trôpegos passos encarcerados
Na alma velha encarquilhada
Era menino. Uma vez!
Foi estudante. Nem fez!
Tarefa inútil desejo incontido
Cresceu no homem recalcitrante.
Empoeirou as folhas
Caíram em látegos e sôfregos planos.
As memórias esqueceram.
Não podem soçobrar ao peso dos anos.
As imagens apodreceram.
Voltaram à terra, à nau, ao frio.
E o verão próximo?
O que temos para ele?
A primavera rósea que se expande.
É nova.
Florida.
Eterna.
Para que lembrar memórias?
Se o que vemos é o arco-íris dourado!

k.t.n.*