terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pinga

A água pinga
Pinga a água
Se a água é pinga
Pinga é água?

Este teorema
Equação equatoriana
Sofre de insolação
Estertor de solidão.

A água pinga.
Pinga a água.
A água pifa.
Pisa na água.

A pinga mata
Mata a sede
Salva gente
Muita saliva e hálito.

A água respinga
No mato, na rua
Na flor, na janela
Na garrafa vazia.

A água pinga
Pinga a água.
Goteja forte
Goteja pequeno

É um pedaço
Do meu pensamento.

k.t.n. in novo ensaio em véspera de voltar

domingo, 2 de novembro de 2014

Mimesis II

    Arte: Sérgio Genaro

É preciso pedir perdão. 
Navegar nestas bocas santas. 
Almejar o trato dimensionado.
Esquecer o furacão da alma. 

Urge fazer a palavra seguir. 
O dicionário florir. 
As flores-palavras-frutas 
brotarem do tronco. 

Há um não sei quê nesta hora. 
Uma faina, um labor. 
Porém, é preciso o perdão. 

 Antes que o mundo acabe. 
Antes que o terreno desabe. 
Antes que o vulcão cuspa 
suas lavas latejantes vermelhas crispadas. 

E o homem caminha, assim. 
 Imperdoável palavra na esfera do tempo. 
E não pede perdão, não pede perdão, 
não pede perdão. 

É homem apenas. 
Esqueceu-se. 
Deus teve pena, 
a memória falha.

É memória apenas!

k.t.n. in Finados*&

Mimesis

              Pat Erickson. 

Há uma tristeza no ar. 
Quando a boca quer calar, 
o que a fala oculta.

 As palavras todas intraduzíveis. 
Perfeitas sílabas sem fonemas.
Um tormento sem remendo. 

Estrelas pontiguadas ferinas. 
É a palavra não pronunciada. 
O texto soluçado e estanque na garganta.

Nada se compara à dor vivente. 
A insídia e pérfida traição. 
Da dilapidação da língua circundante. 

Em espiral genérica em gaze estuporada. 
A argamassa do texto arremessado, 
ao dissabor das ondas da maré. 

Um homem, o que é? 
Um homem, o que faz? 
Um homem, um ser! 
Precisa exercer! 
Constelações de expressões, arte e mimesis.

k.t.n. por um Dia de Finados*&