sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pequeno conto sobre avós.

Minha avó materna era italiana, tinha a mão pesada, polenteira, trabalhou na roça, lavou roupa na mina, passou-as com ferro à carvão e, vez ou outra, costumava bater em minhas costas magras dizendo: _Filha, você precisa engordar, está "fatídica", os homens não gostam de mulheres magras!

Que raiva! Não queria engordar, nem comer mais... depois, comecei a achar engraçado! Até hoje não sei, exatamente, o que é "fatídica", mas entendi, perfeitamente, que os costumes mudam, mas as exigências quanto ao corpo feminino não!

Hoje quero comer chocolate, amendoim, pães e bolos, pudins e preciso controlar um tal de colesterol... isto sim, é motivo para bater em minhas costas e me lembrar: _Filha, vc não pode comer muito doce, vira gordura, que aumenta o seu colesterol, precisa se cuidar. E olha que não sou gorda, para os meus quase 50 anos, pouco peso acrescentei à idade.


Nesta época, já queria ler Cecília e Clarice.








k.t.n.* in memória de avó.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Fatigada

A vida me toca.

Toco na vida.
Como quem remexe
Ferida profunda.
Ela responde.
Taciturna, imunda.
É a passagem ...
A miragem enganadora
De retinas fatigadas.

Colete de esmeraldas
Superpostas em rubis.
Fada inescrupulosa.
Tecendo aliens e arlequins.

Falta cor e cinza prata.
À tocar no alheio.
Passagem ligeira.
O homem ofegante.
Sussurrando cansaço.
Dos dias gritantes.
Esperançosos coitados.

Fé que se move,
Entre o arco e o espelho.
E o menino cresce.

k.t.n.* in desafio de vida

Sem vontade


Ilustração Luis Quiles
















Escrever é um ato de vontade.
Perdi a minha!


k.t.n.* entre achados e perdidos


domingo, 19 de janeiro de 2014

Cansaço


Quem alivia este cansaço que me pega nesta hora?
Sem cobrar nada, só brando lírio e açucena...
Sem pedir ou mandar, só primavera e folhas tecendo.
Quem me fala baixinho ao ouvido palavras sem sentido?

Preciso do descanso-remanso da paz de um dia inteiro,
Da vida toda que correu, verteu lágrimas no rio-mar.
Desaguou no Planeta Terra e em outras eras morreu.
Esferas contíguas de enganos, vida,  leque se desfaz.

Leve tudo que já amarelou, a calça jeans desbotada,
O terno guardado no guarda-roupa esperando anos.
A bota que a chuva não molhou, a cambraia que não bordei.
Meus dedos tangem a boca vermelha que cintila carmin.

E o pó da penteadeira pede o pente de madeira.
Roubado da última festa, singelo na aresta da gaveta.
Este cansaço sufocado precisa sair dos poros e das esquinas.
Dobrar de fato o local inexato, sentir, partir e não voltar!

k.t.n.*