domingo, 23 de outubro de 2016

Luas afogadas


Este azul que me banha
Lança-me na argila seca
Toma-me de sôfrego
Entorna as luas afogadas
Uma mescla de matizes

Feiticeiras que realçam
A esfera circular e espiral


Que volta ao mar

Que volta à terra


Uma experiência única
Num ser vivente e atemporal
Nu revive o poente
Explora sementes seres viventes
E volta no Sol procurando o azul
Este azul cinzento que pranteia
Qual lua cheia na vizinhança


Este azul que me banha

Lança-me na argila seca
Toma-me de sôfrego
Entorna as luas afogadas
Uma mescla de matizes
Feiticeiras que realçam
A esfera circular e espiral


Que volta ao mar

Que volta à terra


Uma experiência única
Num ser vivente e atemporal
Nu revive o poente
Explora sementes seres viventes
E volta no Sol procurando o azul
Este azul cinzento que pranteia

Qual lua cheia na vizinhança

Que volta ao mar
Que volta à terra

A felicidade bendita bem se esquiva
Torrente de dores desabam
Onde as cores e o azul e matizes
Do claro, ao escuro, vernizes?
Da roupa ao sapato marquises?
Não, uma espiral celeste, maresia
Conta dourada não cabe mais


Que volta ao mar

Que volta à terra


A onda do mar aprumou levou
O barco antigo da cantiga
Abarcou nos olhos castanhos
Na lua dourada e prateada
Dos cabelos seresteiros
O vento alvissareiro das campinas
Nos olhos da namorada. 


Que não volta ao mar

Que não volta à Terra.


k.t.n. in alvissareiras.

Camões provinciano

Ah, quanto gostaria
de escrever um poema imenso
Decassílabo oitava rima
de mares nunca dantes navegados

Oito mil versos mais oitocentos e tantos
Alternados, intercalados, interpolados
Como queria este imenso caudal de textos
Uma sentença palavrória encantada
Para tecer redes e enlaces intuitivos
Ganhar mar e amplidão nesta celeste esfera.

Mas quedê coasmões? Assim singelas e quietas
Não se põe a fazer, não reza, não pede, não insiste
Cala-se!
O verso não compõe.
Chora!
Lágrimas inteiras que não caem, não pingam na roupa.

Como formar, então o gigante mar?
Jamais, jamais, ... lágrimas caladas não fazem versos
Nem canção, nem métrica, nem rima.
Est o mal!
Não aprender a chorar!
Por um soluço e um lamento!
A face desinquieta e o clamor do vento!
Venha!
k.t.n. in desassossego decassílabos.

Rosas e linhos

Assim que amo: quieta, desmaiada sem glamour.
O encantamento se perdeu na linha do tempo.
A orquídea branca cedeu espaço às rosas.
Com espinhos e perfume como tez macia.


Amo num canto abafado, num clamor calado
Triste e soturna, aliviada e solitária
Este modo novo aniquila e eleva as cortinas
Fumaças tênues nos dias passando.

Era uma vez e uma princesa tardou na espera
Presa num castelo impróprio sem as luzes
Sem os arminhos e lençóis de linho

Enrolada, a espiral encurtou a maciez secou
A arte emprestada do Sol e Lua marcou
E o amor, este dando, ficou.

k.t.n. in aprendizagem.

Noite, café e xícara

A noite encerrou o ciclo.
Hora de dormir.
Acordar acanhado

Saborear o café sem manteiga
Dividir os cantos dos pássaros
Deitar dúvidas sobre os inquietos

A hora é essa,
Não há outra.
Uma indigesta pressa
De acabar com o dia
A noite empresta seus holores
Deixa um gosto por mais sabores
E onde o recato da donzela?


Passaram o ferrolho na cancela
Fecharam portas,
Desatinaram dúvidas.
A lua inconformada brilhou intensa
Dentre nuvens cinzentas noturnas
Enfrentou as estrelas mais luzentes
Deixou suas pontas vergarem
Entre homens e serpentes


E a manhã há de chegar
Encontrar o seu café
O amargo reluzente
Aroma entre frutas
Pão picados sobre a toalha
Ao lado o pires e a xícara.

k.t.n. in acanhamento

Lirismos

Com quantos lirismos se escreve um poema?
Dois talvez?
Duplicado à quatro.
Insensato e desabonado
Por um corpo jaz a lira
Infante e bela ilha
Dos lírios e amarílis

Talvez, na pressa poucos ínfimos
Desejosos de saber paradeiros
Na curva do retrato alheio
Multidões de liras escapam
Sorrateiras enfrentam filas
Cruzam rios e ares
Fortalecem braços

Bocas carnudas vermelhas
Num tato sombrio
Com a lua virada
O poeta assombrado
Escolhe o poema.

k.t.n. in indizível chama