quarta-feira, 19 de julho de 2017

Trovinha de querer bem!





E se a poesia te deixar




Agarre-a com toda a força!




Não a deixe partir de ti




Tanto bem tanto querer




Que esta vida por viver




É saudade e não tem fim




Registre com olhos e afins.





Trabalhe com a régua 




Transferidor e compasso,




Papel e tinta no jeito



Palavras e frases no peito.


k.t.n. in provinha besta

terça-feira, 18 de julho de 2017

Narinas

Um pão,
uma narina
a tangerina
abre

cura e secreta
esparge
o sumo

libera voláteis
gomos carnudos
deita a pele
rugosa

depois de seca
na boca
homem.


k.t.n. in sumo

Húmus

Feita das espécies me compus
Neste campo fértil de húmus
Troglodita de resíduos e verminoses
Embarquei num mastro rumo
ao rio
Neste fundo do rincão macio
As dentaduras caídas ao largo
Espécie de contrato com o malfadado
Entrega do que faltou 
As areias da enseada prantearam
Levantaram-se para me suspender
Já de barro puro já não sou
Contaminada de insetos e pus 
Pés tardios em andanças mil
Mãos partidas em comboios e navios
Ruminando entre hálitos e salivas
Nocivas falas, grunhidos inatingíveis

Eis o homem!
Composição febril!

Saco de batatas em patente dissolução 
Degradação dos dias o tempo não engana
Perde-se mais ainda, nas vaidades mundanas
E os vírus do fracasso e do temor
Se assenhoreiam deste passo largo
Que é deste corpo falho e macio?
Que é do sabor, paladar, linguajar?
Em horas terrestres que os sombrios passeiam
Em noites de geada, de vento e de peste
Acumulam os nervos mensagens atrozes
Levando ao regaço do epitáfio 
A mensagem única 
Que rasga a sublimidade, a pele macia
Do pêssego e veludo
O húmus atingido e fecundado 
Retorna, retorna humidificado
Faz novo rosto, contorno, utopia
Um novo homem, face a face 
Unhas frias, boca silente, aguardente
Brota das terras e dos conglomerados
Imagem infantil engano para crescer


E passa boi, passa boiada
Leva-se, assim, às madrugadas.


k.t.n. in vermifugando

domingo, 16 de julho de 2017

Trovinha de querer bem!

E se a poesia te deixar

Agarre-a com toda a força!

Não deixe partir de ti

Tanto bem tanto querer

Que esta vida por viver

É saudade e não tem fim

Registre com olhos e afins.

Trabalhe com a régua

Transferidor e compasso,

Papel e tinta no jeito

Palavras e frases no peito.

k.t.n. in trovinha besta, meu deus!!

Olhos antropófagos



















Tenho olhos tão cansados
De olhar imensidão vazia
Pessoas frias em vaidades
Umbigos em forma de coração

Mostram os dentes, riem, sorriem

Mal se contentam com o almoço e o jantar.
Querem todas as fatias, comem o fígado
Antropófagos alheios do vão caminhar.
Engolem bocas, olhos, braços


As mãos se enroscam e querem sair.

Como arteiras e sorrateiras
Sozinhas e fazendeiras
De tecidos e rendas e doces-de-leite


Estes olhos fatigados

Emprestam ao arco-íris seus dobrados
Fazem de conta que o bicho não comeu
Dá-se em receitas,
Vira um homem, vira um breu
As pessoas passam as pupilas pulam


Um despautério ...


Acho que um destes olhos é menino

E o outro menina, não se entendem
Um rosa e outro azul, mesclando-se
Tintura falha, visão turva, o rio desce.
A velha da esquina em prece,
Na sua tez a nau desaparece.



Era um conto, era uma vez.


Pululam dentro do armário,

Resgatam os miasmas das tosses
E o amor arrefece, ri-se do caldo
Que entornado cresce.



k.t.n. in olhos

Teu aniversário

O que te darei no dia do teu aniversário?
Um buquê de rosas e um altar
As roupas não usadas da duquesa
Um imprevisto numa hora incerta
Talvez, os eucaliptos da Califórnia.
Será que lá tem eucaliptos?



As flores de malva que crescem nos campos,
Mel e adornos para lábios e pescoço
E dar-te-ei, ainda, açucarados quitutes
Embrulhados para presente em laço de fita.


Um balaio de encantos,
Uma festa secreta
Carinho de quem se ama.
Trarei as melhores frutas 
O entardecer será breve



As notas das músicas não dançadas
E a noite será longa
Piano e harpa, sonho e feitiço
Um abraço, um roçar de faces
Estar fraterno no dorso forte
Mais ainda, anos que não passarão.

k.t.n. in restabelecimento

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Entre tecidos

Os quilos que perdi, a pele que se afrouxou, olheiras perdidas no rosto, por dentro um não sei quê de estar quieta, parada, sem contar o tempo, só permanência, esvaziando vãos, ocos, meandros de nervos, estrias, ossos e peles com alguma gordura. A ideia do tempo passando é irreal, a folhinha conta, mas os olhos não. Algo doce e estático, a energia frouxa, pensamento em transe de calma. Algo se transforma, o futuro imaginado não tem representatividade neste momento, é só uma sombra do passado. Há um esgarçar de peles e células, que se recompõe em outras formas, esperançosas e cautelosas, confiantes, conformadas e certas de um novo tempo, onde tudo será medido, pesado, avaliado com critério, sem desperdícios. E este tempo que não passa... ele não precisa passar, existir é algo momentâneo e frugal, como a manhã silenciosa que não avisa que chegou. O café cedeu lugar ao chá, os pães recheados às torradas com geleias. O chocolate ainda tenta avançar nas noites dando um peso que não combina com a nova morada deste ser que renasce das dores e do imprevisto. Um anjo paira, balança-se próximo à cama bem feita, arruma de novo os lençóis, observa a água na cabeceira do criado-mudo e se afasta, talvez entre árvores verdes, fresquinhas, mortas do orvalho recente, e se vai numa balada para poder voltar. E a cicatriz acusa alguma dor, uma lembrança do que foi, como a costura de um saco de arroz, mas o barbante é fino, a coragem de se ver no espelho é mínima, pois não faz diferença, sentir sim, sentir o movimento peristáltico elucubração da vida que preenche as veias pálidas em sangue novo e suculento, livre das ameaças das células murchas e alteradas. O sangue circula, toda a noite, o dia todo, vinte e quatro horas e se higieniza e se limpa e não importa a pele flácida, a resistente e insistente capa protetora da vida frágil e resistente. Os quilos voltarão, talvez, alternando-se com etapas de esquisitice passageiras, mas voltarão, porque o tempo é de pessoas gordas e vacas magras. Evoé!!