domingo, 18 de setembro de 2016

Drummondiando

Chega um tempo em que não se tem mais paciência para as mesmas coisas de outrora e se adquire mais tolerância com outras, sobretudo, quando se é capaz de vislumbrar a si como diante a um espelho. Tempo de coisas mais amenas e, também, mais tristes, das cores esmaecidas, dos afetos perdidos nos arroubos da juventude. E a alma canta solenemente, como num barco em dia outonal à deriva em lago manso. E as flores que margeiam não são lírios brancos; outras cores incendeiam o sol, como se estivesse a se pôr. O esconderijo é descoberto e se anseia pela noite, a mesma morna noite que lhe mostra frio nos pés, e a necessidade de curvar-se em torno do seu corpo faz perceber danos em pontos de músculos e nervos, tencionando a face, procurando no travesseiro o cheiro conhecido e o da roupa lavada e perfumada pelas mãos que prometem trazer no aconchego que falta. Hora grave! Sem terror noturno campeia pelos lençóis e olha ao lado, olhos semicerrados, à espera da pequena morte de todo dia. Lança um suspiro aliviado. A cabeça gira, lentamente, para o lado oposto e encontra a parede. Enfim, olhos se fecham. O som do outono descansa e em seus sonhos músicas várias invadem o espaço. É de novo a moça do tempo, a senhora das ideias e das ações. Não roubarão, não mais, ah, isso não! Vantagem adquirida, trancada em cofre de alabastro e que confirma o bronze de dias dourados. Silêncio. Só silêncio. A música precisa tocar. Deixem-la. k.t.n. in atroz.

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