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Pinga

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A água pinga Pinga a água Se a água é pinga Pinga é água? Este teorema Equação equatoriana Sofre de insolação Estertor de solidão. A água pinga. Pinga a água. A água pifa. Pisa na água. A pinga mata Mata a sede Salva gente Muita saliva e hálito. A água respinga No mato, na rua Na flor, na janela Na garrafa vazia. A água pinga Pinga a água. Goteja forte Goteja pequeno É um pedaço Do meu pensamento. k.t.n. in novo ensaio em véspera de voltar

Mimesis II

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    Arte: Sérgio Genaro É preciso pedir perdão.  Navegar nestas bocas santas.  Almejar o trato dimensionado. Esquecer o furacão da alma.  Urge fazer a palavra seguir.  O dicionário florir.  As flores-palavras-frutas  brotarem do tronco.  Há um não sei quê nesta hora.  Uma faina, um labor.  Porém, é preciso o perdão.   Antes que o mundo acabe.  Antes que o terreno desabe.  Antes que o vulcão cuspa  suas lavas latejantes vermelhas crispadas.  E o homem caminha, assim.   Imperdoável palavra na esfera do tempo.  E não pede perdão, não pede perdão,  não pede perdão.  É homem apenas.  Esqueceu-se.  Deus teve pena,  a memória falha. É memória apenas! k.t.n. in Finados*&

Mimesis

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              Pat Erickson.   Há uma tristeza no ar.  Quando a boca quer calar,  o que a fala oculta.  As palavras todas intraduzíveis.  Perfeitas sílabas sem fonemas. Um tormento sem remendo.  Estrelas pontiguadas ferinas.  É a palavra não pronunciada.  O texto soluçado e estanque na garganta. Nada se compara à dor vivente.  A insídia e pérfida traição.  Da dilapidação da língua circundante.  Em espiral genérica em gaze estuporada.  A argamassa do texto arremessado,  ao dissabor das ondas da maré.  Um homem, o que é?  Um homem, o que faz?  Um homem, um ser!  Precisa exercer!  Constelações de expressões, arte e mimesis. k.t.n. por um Dia de Finados*&

Lavandas, lírios e sorvetes!

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Por favor, lavandas, lírios, sorvetes e alfazemas! Chás, panelinhas, daquelas pequeninas! Xícaras, porcelanas, vidros, potinhos. Caibam nos bows a notícia do dia! Também, aceita-se rosa ou camomila! Incenso de sândalo, limão ou capim canela. Perfumes da Síria ou das noites árabes. Qualquer sinuoso que encha os olhos. Não se esqueça das alfazemas, lavandas e cinema. Leve pipoca, chocolatinhos, chicletes e goma. A música principia no olfato paladar. Mesa gostosa de se sentar! Por favor, lavandas, lírios, poemas e alfazemas! Cinema, cinema, filme de cor e amor! k.t.n.*&

Veia cava

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Sou daquelas pessoas que não deixam dúvidas, Mas  respostas compridas, enormes, rasantes. Pingos de interrogação, uma paixão indiscreta. Um falo perdido e noites insones. Uma mulher falha, fatal   menos ainda . Que embola e embrulha os menores inglórios dias. Passeia pelas letras e repousa na preguiça alheia. A mulher que passa, que fica e que resmunga. Uma veia cava, profunda e insólita, comum. Arrebanho estrelas, escondo tesouros e cheiros Embalo feridas, dores e partidas, arremesso louros. De uma tristeza sentida, filtrada e coada. A mulher que brilha, que senta sobre a soleira. Lê o próximo livro e pede para a próxima poesia passar. Assim, sorrio, para mim! Sou uma mulher, que também passa! k.t.n.^&

Sexta-feira de agosto!

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Entrego-te as minhas forças. E durmo até amanhecer! Numa primavera forçada. De ecos e melancolias. Navego entre os cílios fechados. Encosto a porta. Deito as costas nuas. Enxergo o passado entre nuvens. O algodão dissolveu pássaros lacrimejantes. Só essência, pó e mistério. Uma tarde, apenas, de recolhimento. Horas forjadas de esquecimento. Deixo o remédio sobre o criado-mudo. Ainda existem móveis assim. Sobre a mobília exposta água em copo de vidro. E as forças se espalhando pelo corpo entregue. É tarde da última sexta-feira de agosto. k.t.n.^&

Soneto invertido

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A vida é uma festa! Deixe a música tocar! Fios de cabelo, hálitos e espermas, Analisar vãos e labirintos entre pernas. Esfacelar frios e bordas amarelas, Concatenar fatos, desencontrar e boatos. Assim, festa! Assim, dor! Assim, cor! Assim, ó!, Assim, é! Assim, ih! Esperança medíocre de todos. Da alta sinfonia eleger querubins. Passar dias afoitos e cansados. Enquanto a música toca, virar arlequins. Pousa tua mão na testa fria. Enruga a roupa velha, tua pele, mar de ver. Nas ondas do bar que bate, sofrem peixes, águas marinhas. A música toca no Oceano, dos teus olhos, em nossos planos. k.t.n.*